Terceirizados da educação em Betim relatam abusos cometidos por instituto
Em audiência nesta quarta (15), trabalhadores criticam inação do sindicato da categoria, o qual nega omissão.
15/05/2024 - 19:56Trabalhadores da educação contratados pelo Instituto de Dignidade e Desenvolvimento Social (IDDS), em Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), denunciaram uma série de irregularidades e abusos cometidos por essa organização social (OS). Fruto da terceirização, pela prefeitura local, para prestar serviços educacionais, o IDDS contrata cerca de 4.300 trabalhadores, que atuam em 66 escolas municipais e 28 centros infantis municipais (CIM).
As denúncias foram feitas em reunião da Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) nesta quarta-feira (15/5/24). Solicitada pela presidenta da comissão, deputada Beatriz Cerqueira (PT), a audiência pública teve como foco buscar medidas para solucionar os problemas enfrentados por esses trabalhadores.
Professores e funcionários das áreas administrativa e de serviços gerais fizeram críticas severas à maneira como o IDDS tem tratado todo o corpo funcional. Bruno Nascimento, professor de Geografia, relatou que os salários vêm sendo pagos com atraso há 16 meses: “Não há justificativa para atrasar; as pessoas precisam comer; isso é cruel”.
Rememorou que ele e colegas decidiram criar uma comissão para negociar com a empresa, em abril deste ano, sob intermediação da Superintendência Regional do Trabalho (SRT). Em resposta, afirmou, o IDDS enviou cartas ameaçando de demissão os que participassem desse movimento. E após isso, demitiu quase todos que estavam na comissão.
Bruno apelou ao Ministério Público do Trabalho para que atue nessa causa e fez críticas ao Sindicato dos Empregados em Instituições Beneficentes, Religiosas e Filantrópicas de Minas Gerais (Sintibref). Disse que a entidade tinha recebido cerca de R$ 178 mil em quatro anos de atuação e nunca teria representado a categoria.
Acrescentou que o sindicato não teria tomado nenhuma atitude em relação às denúncias à SRT. E afirmou que a última convenção coletiva de trabalho teria sido feita na surdina, sem a participação dos trabalhadores, “nos fazendo pensar que o sindicato está a favor da empresa”.
Sem vale-alimentação
Também professor de Geografia, Vinícius Pereira, acrescentou que o IDDS cancelou o “Clínica de Todos”, plano de saúde da categoria, mas deixou uma dívida para cada funcionário. Sobre o vale-alimentação, disse que a empresa não deposita para ele, alegando que seu salário é maior que R$ 2.800.
“Mas se eu dobro a carga horária, entendo que tenho direito”, afirmou ele, contrapondo que, em Contagem (RMBH), é pago o vale para as pessoas que trabalham em dois turnos. Quanto às férias, relatou que dois supervisores do IDDS queriam coagi-lo a assinar um documento com data antiga.
Criticou também a falta de um e-mail institucional do instituto, que só se comunica por WhatsApp, e de forma desrespeitosa. Relatou que, ao fim de cada ano, os trabalhadores terceirizados se sentem humilhados, porque não recebem o rateio do Fundeb, diferentemente dos efetivos. Além disso, recebem salário R$ 1 mil menor.
Por fim, lembrou que o IDDS anunciou a demissão de 432 trabalhadores, sob o argumento de que o município está chamando concursados. “Mas a prefeitura só nomeia um ou dois por mês”, reagiu.
Adoecimento e cansaço
Também professora, Regiane Pereira repisou denúncias dos colegas, e confirmou que foi demitida após participar da mobilização. “Estamos adoecidos e cansados pois tudo que vivemos é humilhante, desgastante”, lamentou.
Gislene Alves, secretária escolar, também demitida, relatou que não foi dada a ela a oportunidade nem de se despedir dos colegas e dos alunos.
Maria Raquel Ferreira, merendeira, disse que foi a única da comissão não demitida, mas que vem passando por situações de assédio. Trabalhando em dupla com outra merendeira, declarou que a colega se acidentou, obrigando-a a assumir todo o trabalho sozinha.
“Às vezes, não consigo fazer o horário de almoço, mas a empresa diz que devo bater o intervalo nesse horário, mesmo sem almoçar”, explicou.
Sindicato nega que tenha se omitido da representação
A advogada do Sintibref, Aneliane Patrícia Santana, negou que a entidade tenha sido omissa na representação dos interesses dos profissionais de educação de Betim. Segundo ela, há duas ações judiciais do sindicato, uma cobrando o pagamento do reajuste salarial de 2023 e outra contestando a demissão em massa promovida pelo IDDS.
Sobre a cobrança do reajuste, a advogada afirmou que há sentença determinando o pagamento, mas como o processo está em andamento, não foi definido prazo para pagamento dos valores.
A profissional afirmou que o sindicato decidiu não comparecer à reunião entre Secretaria de Educação de Betim e Ministério do Trabalho, que teria acontecido nesta quarta (15). A decisão teria sido tomada porque a reunião não foi marcada com antecedência e seria uma manobra do IDDS para alegar a ilegalidade da paralisação dos trabalhadores, sob o argumento de que ainda ocorreria negociação. “A reunião não foi reivindicada pelo sindicato”, afirmou.
Ela disse que o Sintibref tem informações de que a empresa não recolhe o FGTS de todos os trabalhadores.
Tentativa de esvaziar audiência pública
A deputada Beatriz Cerqueira (PT) afirmou que a reunião realizada pelo IDDS no mesmo dia da audiência pública foi também uma tentativa de esvaziar o evento promovido pela ALMG.
Como principais encaminhamentos, a deputada anunciou que vai acionar o Tribunal de Contas do Estado para que fiscalize o descumprimento de pontos do contrato pelo IDDS. Vai também acionar o Ministério Público do Trabalho para que cobre da prefeitura e do instituto o cumprimento de direitos trabalhistas.
Legitimidade
A presidenta do Sindicato dos Professores de Minas Gerais (Sinpro), Valéria Morato, afirmou que o movimento desses trabalhadores cumpriu os requisitos para sua legalidade.
“O IDDS está descumprindo suas obrigações contratuais; cabe ao município fiscalizar e romper esse contrato”, cobrou.
Também registrou que o instituto está contestando judicialmente a legalidade da representação exercida pelo Sinpro, depois que este advertiu extrajudicialmente o IDDS para que não promovesse assédio moral contra os trabalhadores.
O diretor do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (Sind-UTE) - Subsede Betim, José Luiz Rodrigues, afirmou que a história de luta da entidade garante sua legitimidade para representar os trabalhadores de Betim.

