Resistência e alegria marcam 60 anos da Unidos dos Guaranys
Escola de samba da favela Pedreira Prado Lopes tem seu trabalho destacado por promover os direitos de etnias e grupos sociais minoritários.
12/09/2024 - 18:29Um celeiro de cultura e tradição. Um espaço de alegria e resistência. Uma escola que forma, ensina e acolhe. Por seu papel no Carnaval de Belo Horizonte e por sua atuação na comunidade, promovendo os direitos da população negra e periférica há 60 anos, a Escola de Samba Unidos dos Guaranys foi homenageada nesta quinta-feira (12/9/24) na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG).
Na reunião da Comissão de Direitos Humanos, solicitada por sua vice-presidenta, deputada Bella Gonçalves (Psol), integrantes da escola e do poder público destacaram o papel formador da Unidos dos Guaranys, escola da Pedreira Prado Lopes, na Capital. “A cultura é o mais importante ali. A escola transmite toda a tradição da pedreira com sua oralidade, musicalidade e dança”, salientou Bella Gonçalves.
O presidente da escola, Gleison Fernandes da Silva, enfatizou que a missão da agremiação é usar da energia do Carnaval para impulsionar mudanças na comunidade. “Nosso trabalho não acaba na quarta-feira de cinzas”, pontuou. Para ele, ser favelado, periférico e integrante da Unidos dos Guaranys requer muita fibra. “O desfile na avenida é o momento em que esse povo se torna protagonista de sua história”, avaliou.
Makota Célia Gonçalves Souza, coordenadora-geral do Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira, acrescentou que as alas e personalidades das escolas trazem a cultura negra nem sempre reconhecida pelo Estado. “O que seria da Pedreira Prado Lopes, do Buraco Quente e adjacências sem a escola? Seria uma vida triste e mais dura”, enfatizou.
O fundador da Velha Guarda e ex-presidente da escola, Mário César de Almeida, fez análise semelhante. Para ele, na favela, o sofrimento está posto. Mas, com o samba, o sofrer tem mais poesia. “É uma necessidade”, definiu. Ele ainda salientou que a Unidos dos Guaranys é herdeira de outras escolas do bairro, que constituem o berço do samba em BH.
Órgãos de cultura apresentam iniciativas
Representantes das Secretarias de Cultura do Estado (Secult), da Prefeitura de Belo Horizonte (SMC) e da Belotur participaram da audiência e destacaram, além do trabalho realizado, o que está em planejamento. Uma das notícias mais comemoradas veio da chefe de gabinete da Belotur, Sandra Mara Lima, anunciando a liberação de recursos para o Carnaval com maior antecedência, em função do ano eleitoral.
“Também estamos finalizando a escolha de um novo local para os desfiles, o que era um pedido das escolas”, acrescentou. O presidente da Liga Independente das Escolas de Samba de Minas Gerais, Eduardo Raimundo Bavose, confirmou que o pleito de receber antecipadamente os recursos tem mais de 40 anos. “É uma luta colocar a escola na rua e receber 15 dias antes do Carnaval, como em 2023, ou até depois”, afirmou.
Já o diretor de Proteção e Memória do Instituto Estadual do Patrimônio Artístico de Minas Gerais (Iepha), Adriano Maximiano da Silva, salientou que, em fevereiro deste ano, o órgão abriu processo para reconhecer o samba como patrimônio imaterial do Estado. Agora, prepara um cadastro para mapeamento dos locais de samba, para elaboração de dossiê e do plano de salvaguarda. “Desde o início, o processo é participativo. E agora vamos ampliá-lo para o interior", afirmou Adriano, que representou a Secult.
Por fim, Arminda Aparecida de Oliveira, da diretoria de Desenvolvimento e Articulação Institucional da SMC, anunciou parceria com a Belotur para tornar o fomento ao samba uma política pública continuada. “Para o ano que vem, vamos ampliar o prazo dos editais para blocos e escolas e flexibilizar algumas questões sobre documentação”, acrescentou. Ela ainda lembrou que a Lei Aldir Blanc tem uma categoria específica para fomento do Carnaval.