Propostas classificadas em premiação da ALMG focam em agricultura mais sustentável
Cenário de mudanças climáticas impõe necessidade de mudar a forma de se produzir no Brasil e em Minas Gerais.
19/12/2024 - 08:55O agronegócio é uma das principais molas propulsoras da economia não só do Brasil, como também de Minas Gerais. Considerado celeiro mundial, o País já lidera exportações de alimentos como soja, milho, café, açúcar e suco de laranja. Mas o contexto de mudanças climáticas imprime a necessidade de mudar a forma de se produzir na área.
Essa é, inclusive, uma das ações previstas para o Brasil reduzir a emissão de gases do efeito estufa em até 67% até 2035, considerando os níveis de 2005. O compromisso foi assumido na 29ª Conferência das Partes (COP29), principal evento global para discussão das mudanças climáticas, ocorrida em novembro deste ano no Azerbaijão.
Dessa forma, o País irá dedicar esforços para reduzir o desmatamento e recuperar áreas degradadas, além de expandir a produção agrícola de modo sustentável.
Incentivar esse tipo de produção agrícola foi um dos focos do Prêmio Assembleia de Incentivo à Inovação - Crise Climática, entregue neste mês pela Assembleia Legislativa de Minas Geais (ALMG), em parceria com o Parque Tecnológico de Belo Horizonte (BH-TEC).
Entre as dez propostas de soluções inovadoras com potencial para prever, evitar ou minimizar as causas ou efeitos das mudanças climáticas no Estado de Minas Gerais, quatro se destacam justamente por propor uma nova forma de se produzir na agricultura.
Além de cada uma receber R$ 60 mil, também vai poder participar de um programa de aceleração do BT-TEC para viabilizar a chegada das propostas ao mercado.
Desafios para o campo
Para Júlio Bedê, engenheiro florestal e consultor da Gerência de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da ALMG, o grande desafio com as mudanças climáticas está no campo.
Conforme salientou, nesse contexto, é complicado mensurar, administrar e dar a resposta necessária para não ter prejuízos econômicos e sociais. “Se o meio ambiente vai mal, a economia do Estado vai mal, porque nós temos aqui grandes cadeias produtivas como a do café, leite, pecuária bovina, grãos e hortifruti. Todas se relacionam com a segurança alimentar e com a geração de renda para a população mineira”, afirmou o consultor.
Na opinião dele, para Minas não ter perdas, é necessário trabalhar na adaptação. “Isso pressupõe o desenvolvimento de tecnologias, o que o prêmio de inovação propõe”, defendeu.
Ele deu como exemplo a cultura do café, que para alguns especialistas seria inviabilizada no Estado em 30 anos. “Se tivermos melhoramento genético do café, formas sustentáveis de fazer adubação e controle biológico de pragas e precisão na agricultura, por exemplo, já temos um diferencial. Nós conseguiremos nos adaptar”, destacou.
Atividade agrícola sustentável
As quatro soluções classificadas pretendem estimular uma produção agrícola mais sustentável, seja possibilitando o uso de bioinseticidas e fertilizantes orgânicos, seja promovendo uma pulverização localizada de inseticidas químicos a partir de diagnóstico preciso.
Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), estima-se que 20 a 40% da produção agrícola mundial é perdida a cada ano, em consequência de pragas que atingem as plantações, valor que corresponde a aproximadamente U$ 220 bilhões.
No Brasil, a perda anual decorrente do ataque de insetos nas lavouras é estimada em aproximadamente 7,7%, valor correspondente a quase 25 milhões de toneladas de produtos agrícolas e a perdas econômicas de U$ 17,7 bilhões, conforme a FAO.
Conheça abaixo a trajetória e o trabalho desenvolvido por esses quatro classificados, com atuação no controle de pragas, entre outros pontos.
Conteúdos especiais
Nesta sexta-feira (20), será publicada a última matéria especial da série de três com a trajetória e o trabalho proposto por classificados do Prêmio Assembleia de Incentivo à Inovação - Crise Climática.
A TV Assembleia também veicula na sua programação, nos próximos dias, dez vídeos com a história de cada uma das propostas classificadas.
Projeto institucional
O Prêmio Assembleia de Incentivo à Inovação - Crise Climática é uma das ações do projeto institucional Crise Climática em Minas: Desafios na Convivência com a Seca e a Chuva Extrema, iniciado em março pela ALMG.





Segunda colocada na premiação, a Aiper Pesquisa e Desenvolvimento de Bioprodutos Sustentáveis, de São Paulo (SP), trabalha com um bioinseticida microbiológico, desenvolvido para controlar pragas em plantações de maneira sustentável.
“No Brasil e aqui em Minas Gerais, a gente tem grandes problemas com insetos que atacam as lavouras. E o que é usado hoje como produto para combater esses insetos é um inseticida, que é tóxico, feito a partir de processos muito químicos. E a gente tem consequências como mudança na biodiversidade local, além de problemas na saúde decorrentes da exposição a esses químicos”, explicou o diretor-executivo da startup, Ailton Pereira.
Ele relatou que o diferencial do bioinseticida é que ele é derivado de um insumo produzido pelo próprio microorganismo.
Conforme relatou, são usados resíduos agroindustriais como fonte nutritiva para bactérias, ou seja, elas vão consumir esses nutrientes num processo fermentativo, parecido com a produção de cerveja em biorreatores. Em torno de 50 horas após o início desse processo, o bioinseticida é produzido. "Então é uma solução biodegradável, que não vai agredir o meio ambiente”, comentou.
De acordo com Ailton Pereira, o produto foi testado com dois tipos de insetos, a cigarrinha e o percevejo, que são os que mais atacam as plantações atualmente, e a eficácia ficou comprovada.
Diretor-executivo da BiotecBlue Aquicultura e Biotecnologia Marinha Sustentável, Noreyni Christophe Grego contou que a startup de Taubaté (SP) trabalha com um biofertilizante derivado de microalgas.
Como contou, a empresa, quarta colocada na premiação, já trabalha com essas microalgas a partir de resíduos de tilápia e está começando a usar resíduos de cervejaria artesanal.
“A produção da microalga é muito legal pelo fato que são como mini-plantas. Então fazem uma fotossíntese incrível. Dessa forma, a gente vai gerar crédito de carbono, além de também fazer uso de resíduos que seriam dispensados”, detalhou.
Noreyni Christophe comentou que o produto já foi testado, em ambiente controlado, com a cultura do milho. Mas a ideia é expandir para a soja e o café e ser, de fato, uma alternativa mais sustentável no mercado de fertilizantes.
“Hoje o Brasil é conhecido como celeiro mundial, é um País agrário. Mas que depende da importação de fertilizantes químicos minerais. Além disso, a maioria desses fertilizantes é derivado de mineração, de processos químicos. Então, na própria produção, já é um produto que gera prejuízos ao meio ambiente”, ponderou.
A Green Growth, startup de Viçosa (Zona da Mata), foi a quinta colocada na premiação. Segundo seu CEO e cofundador, Luiz Fernando de Oliveira, ela utiliza inteligência artificial e drones para diagnósticos precisos e pulverização localizada na cafeicultura mineira.
Conforme contou, o trabalho, que tem sido desenvolvido em quatro fazendas-modelo, se inicia com o georreferenciamento da área para ter precisão de onde está cada pé na lavoura. Posteriormente, são usados drones com câmeras multispectrais para a captura dos dados. Dessa forma, é possível identificar onde está a doença no pé, onde está cada erva daninha.
De acordo com Luiz Fernando, são gerados mapas digitais a partir desses dados, após processamento por inteligência artificial.
“O produtor consegue assim tomar decisões muito mais assertivas, que aumentam a produção ao longo do tempo. E com esses dados, ele pode utilizar a tecnologia de pulverizar somente onde precisa”, comentou.
Segundo Luiz Fernando, a técnica reduz em até 80% o uso dos agrotóxicos e em até 50% o uso de água para pulverização. Ele também destacou que a tecnologia ajuda produtores a obterem certificações de manejo sustentável, que oferecem benefícios fiscais, acesso a linhas de crédito e ampliação para mercados internacionais.
Produzir bioinsumos a partir da criação de insetos para recuperar áreas degradadas, conservar solos e induzir resistência na plantação, combatendo pragas. Esse é o foco da BeFert Nutrição Orgânica, de Uberlândia (Triângulo mineiro), décima colocada no prêmio.
CEO da startup, Kaio Mendes explicou que ela cria um inseto chamado tenebrio molitor ou larva da farinha, em um modelo de criação vertical, com maquinário.
“A gente faz alimentação deles com resíduos industriais, por exemplo, farelo de trigo que seria descartado. Eles vão se desenvolvendo, vão fazendo todo o processo de decomposição daquela matéria orgânica e, a partir da coleta, por um processo de peneiramento, a gente faz a separação daquilo que é excreto do inseto. Esse excreto é usado como insumo para a plantação”, explicou.
Conforme disse, o biofertilizante apresenta não só macronutrientes como nitrogênio, fósforo e potássio, como também micronutrientes que são úteis para a saúde do solo.
O biofertilizante, como disse, foi testado em propriedades de 30 pequenos produtores da região de Uberlândia e se mostrou satisfatório.