Comissão de Administração discutiu os impactos de um possível encerramento de atividades da Usina Darcy Ribeiro
Venda de usina de biodiesel em Montes Claros gera temor pelo desmonte da Petrobras

Governo fatia Petrobras para vendê-la, segundo sindicalistas

Petroleiros apontam prejuízos ambientais e socioeconômicos com o possível fechamento de usina em Montes Claros. 

28/05/2021 - 19:50

Em julho de 2020, a Petrobras divulgou o início do processo de venda da subsidiária Petrobras Biocombustível (PBio), incluindo três usinas de biodiesel, uma delas a Darcy Ribeiro, em Montes Claros (Norte). Para deputados, petroleiros e sindicalistas, a medida faz parte de um plano para a privatização total da empresa, que traria enormes prejuízos socioeconômicos e ambientais para o Estado e o País.

Eles participaram de audiência da Comissão de Administração Pública da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) realizada nesta sexta-feira (28/5/21). A reunião foi convocada para discutir o impacto do possível fechamento da usina. 

Consulte o resultado e assista ao vídeo completo da reunião.

Segundo o deputado federal Rogério Correia (PT-MG), o governo adotou a estratégia de fatiar a Petrobras, transformando refinarias em subsidiárias, para fugir da exigência de aprovação no Congresso Nacional da privatização da estatal. O Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou ano passado a venda de subsidiárias sem o aval do Legislativo.

O parlamentar entende que as refinarias são a “galinha dos ovos de ouro” da Petrobras, uma vez que apenas extrair e exportar petróleo sujeita o País ao mercado internacional da gasolina e do diesel, perdendo autonomia para decidir o que vai produzir e sem ter como fazer o controle dos preços.

Rogério Correia lembrou que as três usinas de biodiesel em questão – além da Darcy Ribeiro, uma em Candeias (BA) e outra em Quixadá (CE) – foram construídas no sertão para ajudar no desenvolvimento de regiões pobres. Elas seguem, frisou o deputado, diretrizes ambientais, com a produção de biocombustível, e de fortalecimento da agricultura familiar, fornecedora de soja e outros vegetais necessários.

Cibele Vieira, coordenadora da Federação Única dos Petroleiros, acrescentou que as usinas de biodiesel também são importantes para a qualidade dos empregos nessas localidades. Ela relatou que a Petrobras passa por um momento de pressão para a venda de ativos, com uma queda brusca no número de funcionários, de investimentos e de pesquisa.

Preço baixo - Ela também se queixou do valor da venda de refinarias abaixo do preço de mercado e da política de preços da Petrobras relativa a gasolina, diesel e gás de cozinha, que segue o mercado internacional. Cibele Vieira ressaltou que a empresa deixa de ser formadora do próprio preço, acrescentando custos de importação. 

Nessa perspectiva, Jairo Nogueira, presidente da seção mineira da Central Única dos Trabalhadores (CUT-MG), questionou: “Qual é a lógica de pegar a empresa de um país autossuficiente em petróleo, entregar refinarias, exportar óleo cru e comprar gasolina de volta mais cara?”.

Petrobras está na contramão das petrolíferas do mundo

Para Felipe Vono, advogado e pesquisador do setor de petróleo, a venda da PBio está num contexto maior da política de desverticalização da Petrobras, o que colocaria a estatal na contramão do que fazem as grandes petrolíferas do mundo. “Essas empresas têm diversificado sua atuação rumo a uma matriz energética mais sustentável. E a venda da PBio significa a saída da Petrobras desse mercado de energia renovável”, constatou.

Na avaliação do estudioso, esse processo na estatal teve início em 2016, quando Michel Temer se tornou presidente da República: “Até então, a Petrobras era uma companhia diversificada, líder em tecnologia, com alta lucratividade e ativos estratégicos, como refinarias, usinas e corpo técnico qualificado”. 

Em sentido contrário, a atual gestão da empresa, segundo Vono, tem agido para transformar a Petrobras em simples exploradora de petróleo em águas profundas. “A atual política peca por uma visão imediatista, o que se torna mais grave no cenário atual de mudanças climáticas”, alerta. Esse modelo, na opinião do pesquisador, tornará a Petrobras uma empresa pequena, atuante apenas no eixo Rio-São Paulo, sem investimentos em outras regiões, distante do interesse público, que toda estatal deve ter como foco.

Greve - Alexandre Finamori, coordenador do Sindicato dos Petroleiros de Minas Gerais (Sindipetro-MG), informou que os cerca de 150 trabalhadores concursados da PBio estão no nono dia de greve, em defesa da empresa, que estaria sendo sucateada para favorecer sua venda.

O sindicalista avalia que, se a empresa for privatizada, abrirá mão da sustentabilidade e vai para a lógica da agroenergia. De acordo com ele, a empresa deverá produzir soja para vender, e se isso deixar de ser interessante, tentará vender o biodiesel, o que não é garantido. “Até hoje, nenhuma empresa privada construiu usinas de biodiesel no semiárido”, afirmou.

Incentivos - Finamori acrescentou que qualquer grupo privado que comprar a usina barganhará junto à Prefeitura incentivos fiscais. “Já a Petrobras não faz essa chantagem com o município“, contrapôs. 

Ele lembrou que a estatal, em 2010, tinha participação em dez usinas e “preparava o Brasil para uma transição energética”. E atualmente, continua, “o governo Bolsonaro, que é contra o meio ambiente, reduziu de 13% para 10% o percentual de biodiesel no combustível, deixando a matriz energética mais poluidora”. 

Na avaliação de Finamori, a empresa deveria transformar o lucro do petróleo em tecnologia de transição energética. “Porque o petróleo vai acabar e ficará para o Brasil só desigualdade, dano ambiental e dividendos para acionistas”, concluiu.

Governo de Minas - Por fim, a deputada Beatriz Cerqueira (PT), que solicitou a reunião, cobrou do Governo de Minas uma atuação em apoio à Pbio. Conforme analisou, o Estado está com deficit e o governo continua fazendo renúncia fiscal a favor de empresas que não teriam compromisso com a manutenção dos empregos. “Essa mesma disposição para proteger empresas deveria ser aplicada para apoiar a usina de biodiesel de Montes Claros”, propôs.