A comunidade levou cartazes para protestar contra a construção do centro administrativo da Prefeitura na região
Deputados posicionaram-se contra a instalação do centro administrativo
Pier Senesi leu carta do prefeito Márcio Lacerda
Edilene Rodrigues questionou as afirmações de Lacerda

População não aceita centro administrativo de BH na Lagoinha

Durante audiência pública da ALMG, comunidade pediu revitalização da área e melhoria dos serviços básicos na região.

26/09/2013 - 23:27

Revitalização não é destruição. Com essas palavras, a líder comunitária do Café com Prosa, Teresa Vergueiro, protestou contra a construção de um centro administrativo da Prefeitura de Belo Horizonte na região da Lagoinha, durante audiência pública da Comissão de Assuntos Municipais e Regionalização da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) realizada na noite desta quinta-feira (26/9/13).

Para Teresa, a área tem diversos problemas que precisam ser resolvidos antes da construção do centro. “Essa proposta é incabível, não cabe um complexo dentro da Lagoinha. Temos um posto de saúde hoje que só tem dois médicos. Não temos agentes de saúde e querem colocar um prédio moderno? Queremos nossas necessidades básicas atendidas, queremos o Hospital Odilon Behrens funcionando.”

O presidente da Associação Comunitária dos Moradores do Conjunto Residencial São Cristóvão (IAPI), Carlos de Mendonça Junior, fez coro à Teresa ao afirmar que a comunidade precisa é de melhorias reais. “Nosso posto de saúde não existe. Temos 60% de idosos, precisamos de um centro de referência para eles. No bairro Bonfim, quase não existe esgoto, quando chove inunda tudo. A Prefeitura tem que atender a comunidade, aqui não vai ter centro administrativo”, criticou. Ele ainda afirmou que já foi entregue à administração municipal um projeto de revitalização da área. “Desde 2009 as lideranças já discutem sobre a revitalização da Lagoinha, inclusive um projeto já foi entregue à Prefeitura”.

O deputado Fred Costa (PEN), autor do requerimento que deu origem à audiência pública, concordou com as críticas da população. Para ele, a construção do centro trará mais problemas de mobilidade para a região. “A Lagoinha tem um problema sério de mobilidade urbana. Qual será o investimento? A Prefeitura fala que colocará mais sete mil pessoas na região, isso implica pelo menos mais cinco mil carros. Como isso será tratado?”.

Ele ainda ressaltou a necessidade de revitalização, mas não condicionada à proposta do centro. “Para mim é uma covardia condicionar qualquer tipo de intervenção de revitalização à implantação de um centro administrativo. A revitalização é obrigação da prefeitura independente do centro administrativo”, reforçou. Por fim, o parlamentar anunciou que será protocolado na sexta-feira (27) uma representação no Ministério Público, com a assinatura das três entidades que estão à frente do movimento, contra a implantação do centro administrativo da Prefeitura de Belo Horizonte.

Já o deputado Alencar da Silveira Jr (PDT) incitou a população a lutar pela não construção do centro. “Se antigamente a população conseguia o que queria, hoje é que ela vai conseguir mesmo. A Prefeitura não vai fazer nada aqui que não seja do interesse da população”. Ele ainda exigiu a realização de um estudo de impacto ambiental já que, na sua opinião, com a intervenção prevista pela Prefeitura, o impacto na Lagoinha será grande.

Prefeito envia carta em defesa do centro administrativo

O secretário adjunto de Gestão Compartilhada da Prefeitura de Belo Horizonte, Pier Giorgio Senesi Filho, leu carta do prefeito Márcio Lacerda durante a reunião. Segundo o documento, a construção do centro administrativo tem como objetivo revitalizar a região da Lagoinha, pois irá atrair novos investimentos.

Outra vantagem, segundo Lacerda, é a concentração em um único local de todos os serviços da administração municipal, melhorando o atendimento à população e economizando recursos públicos. Na carta, o prefeito ainda justifica a escolha do local por ser próximo de uma estação do metrô e do BRT. Ele também anunciou que será lançado um concurso público nacional para a realização do projeto do centro administrativo e para a revitalização do entorno e dos seus bens culturais.

Além disso, segundo o documento, todas as decisões serão tomadas após consulta à comunidade. “Assim que tivermos mais informações, passaremos para os moradores da Lagoinha. Serão feitos todos os estudos de impacto ambiental, audiências públicas para decidir o assunto e, a partir disso, tomar a decisão de forma democrática”, destacou.

Após a fala do secretário adjunto da Prefeitura, a representante dos comerciantes do bairro Lagoinha, Edilene do Socorro Teixeira Rodrigues, rebateu as afirmações que constam na carta. Ela questionou a vinda de novos investimentos para a região ao afirmar que isso causaria o fim dos empresários tradicionais. “Nós comerciantes da região pagamos nosso impostos e vamos ser trocados pelos grandes empresários. Onde está a responsabilidade social? A ação do poder público só se justifica se houver justiça social. Será que os peixeiros vão conseguir se instalar em outra região?”

Quanto a escolha do local, ela afirmou que a população mudará para regiões mais afastadas enquanto o centro administrativo ficará próximo aos meios de transporte. “Centro administrativo fica perto da estação do metrô e do BRT e a população daqui perde esse direito? O que vai acontecer com os idosos? Eles, que têm dificuldade para se locomover, vão perder o direito de viver perto do metrô”, exemplificou.

Decreto da Prefeitura é criticado

Os representantes da comunidade criticaram ainda o Decreto Municipal 15.252, de junho 2013, que transforma a área referente a 20 imóveis da região em utilidade pública. Para Edilene Rodrigues, esses terrenos são apenas o princípio. “A área não está definida, sabemos disso. Depois que a torre subir vamos ter que alargar as ruas e desapropriar outras pessoas”, afirmou.

Já Fred Costa pediu esclarecimentos da Prefeitura sobre a área desapropriada. “A área necessária para o centro administrativo ainda não está definida, então para que foi aprovado o decreto?”, questionou o parlamentar. Ele ainda pediu a anulação da determinação da administração municipal. “Exigimos o retrocesso desse decreto”, enfatizou.

Em relação ao decreto, Pier Senesi Filho afirmou que a área prevista para a construção ainda não foi definida e que os lotes poderão ser alterados. Segundo o documento apresentado por ele, o objetivo da declaração de utilidade pública é evitar a especulação imobiliária na área. Ele ainda afirmou que levará ao prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, o ponto de vista da população da Lagoinha sobre a construção do centro administrativo na região.

Toda a audiência pública foi conduzida pelo deputado Paulo Lamac (PT), que é presidente da Comissão de Assuntos Municipais e Regionalização da ALMG.

Consulte o resultado da reunião.